Setembro Amarelo no ambiente de trabalho: por que falar sobre saúde mental também é uma forma de cuidar
Nem sempre uma pessoa em sofrimento consegue transformar aquilo que sente em um pedido claro de ajuda. Às vezes, o que aparece é uma mudança de comportamento, um afastamento das pessoas, uma fala recorrente de desesperança ou simplesmente a percepção de que algo não está bem.
É nesse ponto que falar sobre saúde mental também se torna uma forma de cuidado. Escutar, perguntar, acolher e levar o sofrimento a sério não exige que colegas, familiares ou lideranças assumam o papel de profissionais de saúde. Exige atenção e disposição para não ignorar aquilo que merece ser ouvido.
No ambiente de trabalho, essa discussão ganha outra dimensão. Além do acolhimento individual, organizações precisam olhar para a maneira como o trabalho é planejado, distribuído e gerenciado. Sobrecarga, falta de suporte, assédio, conflitos, baixa autonomia e outros aspectos da organização do trabalho podem constituir fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
O Setembro Amarelo no ambiente de trabalho, portanto, permite conectar três questões que precisam ser compreendidas sem simplificações: prevenção do suicídio, saúde mental e condições de trabalho.

O que é o Setembro Amarelo?
Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio realizada durante o mês de setembro. Seu propósito é ampliar o acesso à informação responsável, combater estigmas e incentivar pessoas em sofrimento a buscar apoio.
No Brasil, a campanha passou a contar também com um marco legal específico. A Lei nº 15.199, de 8 de setembro de 2025, instituiu o Setembro Amarelo em âmbito nacional e estabeleceu 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio.
Entre os objetivos da campanha estão informar sobre recursos disponíveis para apoio e tratamento, reduzir estigmas relacionados à saúde mental, estimular a compreensão sobre o tema e favorecer a procura por ajuda profissional.
O significado do Setembro Amarelo, portanto, vai além do uso da cor amarela. Informação responsável, acolhimento e acesso ao cuidado precisam ocupar o centro dessa conversa.
Por que precisamos falar sobre prevenção do suicídio?
O suicídio é um problema de saúde pública complexo e multifatorial. Não existe uma única causa capaz de explicar um caso, e a prevenção não pode ser reduzida a uma única atitude ou campanha.
As estimativas globais mais recentes disponibilizadas pela Organização Mundial da Saúde referem-se a 2021. Segundo a OMS, aproximadamente 727 mil pessoas morreram por suicídio naquele ano. O suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, e cerca de 73% das mortes ocorreram em países de baixa e média renda.
A própria OMS ressalta que os dados precisam ser interpretados considerando diferenças na qualidade dos sistemas de registro de mortalidade entre os países. Subnotificação e classificação incorreta também podem afetar as estatísticas disponíveis.
O Ministério da Saúde brasileiro caracteriza o suicídio como um fenômeno complexo, multifatorial e de múltiplas determinações. Aspectos de saúde, relações pessoais, violência, perdas, condições sociais, econômicas e profissionais podem fazer parte desse contexto, sem que um acontecimento isolado possa ser tratado automaticamente como causa.
Essa distinção é fundamental.
Quando um fenômeno complexo é explicado por uma única razão — uma separação, uma perda de emprego, um conflito familiar ou uma situação profissional — corre-se o risco de produzir uma interpretação incorreta e até culpabilizadora.
A prevenção exige outra abordagem: reconhecer situações de sofrimento, ampliar redes de apoio, reduzir estigmas, facilitar o acesso ao cuidado e desenvolver ambientes sociais e profissionais que protejam a saúde.
Existem sinais de alerta?
Não existe uma lista capaz de prever com certeza se uma pessoa tentará suicídio. Sinais precisam ser analisados com cuidado e nunca devem ser utilizados para diagnosticar alguém.
O Ministério da Saúde destaca que sinais de alerta não devem ser considerados isoladamente e que não existe uma fórmula capaz de identificar com certeza uma crise suicida.
Ainda assim, mudanças e manifestações podem indicar sofrimento e merecem atenção, principalmente quando aparecem em conjunto ou representam uma alteração significativa no comportamento habitual da pessoa.
Entre as situações que merecem atenção estão:
falas recorrentes relacionadas à morte, desaparecimento ou ausência de futuro;
demonstrações persistentes de desesperança;
isolamento e redução importante do contato social;
perda de interesse por atividades anteriormente valorizadas;
mudanças significativas de comportamento;
piora perceptível do autocuidado;
manifestações de sofrimento emocional intenso.
Nenhum desses elementos, isoladamente, confirma uma condição clínica ou determina o que uma pessoa fará.
O ponto central é outro: uma mudança importante não precisa ser diagnosticada para ser levada a sério.
Se alguém demonstra sofrimento, existe espaço para uma pergunta simples:
“Como você está?”
E, principalmente, para a disposição de ouvir a resposta.
Como ajudar alguém que está em sofrimento?
Acolher significa ouvir sem julgamento, reconhecer que o sofrimento é real e ajudar a pessoa a acessar apoio adequado. Não é necessário ter todas as respostas.
O Ministério da Saúde orienta que a conversa aconteça, sempre que possível, em um local tranquilo, com abertura para ouvir. Também recomenda incentivar a procura por profissionais e serviços de saúde e, quando possível, oferecer ajuda para que a pessoa consiga chegar até esse atendimento.
Algumas atitudes podem ajudar:
Escute antes de aconselhar.
Permita que a pessoa fale sem transformar imediatamente a conversa em uma sequência de soluções.
Leve o sofrimento a sério.
Comparar problemas ou tentar provar que alguém “tem motivos para estar bem” pode aumentar a sensação de incompreensão.
Pergunte como pode ajudar.
Aquilo que a pessoa precisa naquele momento nem sempre é o que imaginamos.
Demonstre disponibilidade.
Uma conversa não precisa solucionar tudo para ter importância.
Incentive a busca por ajuda profissional.
Psicólogos, médicos e serviços de saúde estão preparados para avaliar situações que exigem acompanhamento.
Ajude no acesso ao atendimento.
Em determinados momentos, procurar um serviço, marcar uma consulta ou simplesmente chegar até uma unidade de saúde pode parecer difícil para quem está em sofrimento.
Em situações de risco imediato, procure ajuda de emergência.
A orientação é não deixar a pessoa sozinha e buscar um serviço de saúde ou emergência.
O que evitar dizer para alguém em sofrimento?
Algumas frases, mesmo quando ditas com intenção de ajudar, podem minimizar aquilo que a pessoa está sentindo.
Evite respostas como:
“Você precisa ser forte.”
“Todo mundo passa por problemas.”
“Isso é falta de pensamento positivo.”
“Você tem tanta coisa boa, não deveria se sentir assim.”
“Tem gente em situação muito pior.”
“É só parar de pensar nisso.”
Sofrimento emocional não funciona como uma disputa de gravidade.
Uma alternativa mais adequada costuma ser simples:
“Eu estou ouvindo. Como posso te ajudar agora?”
Precisa de ajuda?
O CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, todos os dias, sem custo de ligação.
Também é possível procurar:
CAPS — Centros de Atenção Psicossocial;
UBS — Unidades Básicas de Saúde;
UPA 24h;
pronto-socorro;
hospitais.
Em situações de urgência ou emergência, acione o SAMU pelo telefone 192.
O CVV oferece apoio emocional. Situações que necessitam de avaliação ou atendimento de saúde devem ser encaminhadas aos serviços adequados.
Setembro Amarelo no ambiente de trabalho: qual é o papel das empresas?
O trabalho pode contribuir positivamente para a saúde mental, oferecendo renda, pertencimento, relações sociais e oportunidades de realização. Porém, determinadas condições de trabalho também podem representar riscos à saúde.
A Organização Mundial da Saúde estima que 15% dos adultos em idade produtiva convivem com algum transtorno mental. Depressão e ansiedade também estão associadas à perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com impacto econômico estimado em US$ 1 trilhão.
Esses números demonstram a dimensão do problema, mas exigem uma distinção importante: isso não significa que todos esses transtornos sejam causados pelo trabalho.
A saúde mental resulta da interação de diferentes fatores individuais, familiares, sociais, econômicos, ambientais e relacionados à saúde.
Uma organização não responde por todas essas dimensões.
Por outro lado, possui responsabilidade sobre aquilo que está relacionado às condições e à organização do trabalho sob sua gestão.
Carga de trabalho incompatível com os recursos disponíveis, jornadas inadequadas, relações autoritárias, assédio, violência, comunicação deficiente, falta de clareza sobre responsabilidades, baixa autonomia e ausência de suporte são exemplos de aspectos que podem representar riscos no contexto profissional.
Por isso, uma estratégia corporativa de saúde mental não deveria começar exclusivamente pela pergunta:
“Como tornar o trabalhador mais resiliente?”
Também é necessário perguntar:
“Como o trabalho está organizado?”
Essa mudança de perspectiva é essencial para uma abordagem preventiva.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
Riscos psicossociais estão relacionados às condições, à organização, à gestão e às relações de trabalho que podem aumentar a probabilidade de estresse e outros danos à saúde. Eles não são diagnósticos psicológicos dos trabalhadores.
A Organização Internacional do Trabalho relaciona os riscos psicossociais a diferentes dimensões da atividade profissional, como:
conteúdo e desenho das tarefas;
carga e ritmo de trabalho;
controle e autonomia;
cultura organizacional;
relações interpessoais;
clareza de papéis;
desenvolvimento profissional;
insegurança relacionada ao trabalho;
violência e assédio;
suporte recebido;
equilíbrio entre as demandas profissionais e outras dimensões da vida.
Materiais técnicos do Ministério do Trabalho e Emprego também apresentam exemplos como excesso de demandas, assédio e falta de suporte ou apoio no trabalho.
Essa diferenciação altera profundamente a forma como a prevenção deve ser realizada.
Uma avaliação de riscos psicossociais não deve ser utilizada para procurar “qual funcionário tem um problema psicológico”.
O foco está em identificar aspectos do trabalho que podem representar perigos ou riscos e avaliar quais medidas organizacionais podem ser implementadas.
A Fundacentro também reforça uma abordagem voltada às condições, à organização e à gestão do trabalho, com participação dos trabalhadores e evitando estratégias que individualizem ou culpabilizem quem adoece.
Riscos psicossociais e NR-1: o que as empresas precisam entender?
A redação atual da NR-1 passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais — GRO. A mudança entrou em vigor em 26 de maio de 2026.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, a revisão do capítulo 1.5 da NR-1 aperfeiçoou etapas relacionadas à identificação de perigos, avaliação e controle de riscos, reforçou a participação dos trabalhadores e incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento dos riscos ocupacionais.
O que são GRO e PGR?
O Gerenciamento de Riscos Ocupacionais — GRO corresponde ao processo contínuo e sistemático de identificação de perigos, avaliação dos riscos ocupacionais e implementação de medidas de prevenção.
O Programa de Gerenciamento de Riscos — PGR formaliza elementos desse gerenciamento e deve conter, no mínimo, o inventário de riscos ocupacionais e o plano de ação, conforme estabelece a NR-1.
A lógica, portanto, não é simplesmente produzir um documento.
Trata-se de manter um processo de gestão capaz de identificar riscos, definir prioridades, implementar medidas preventivas, acompanhar resultados e realizar ajustes quando necessário.
A participação dos trabalhadores também integra esse processo e pode acontecer por meio de consultas, reuniões, escutas, participação na identificação de perigos e acompanhamento das medidas adotadas.
Qual é a situação da NR-1 em 2026?
A redação atualizada do capítulo 1.5 da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026.
Entretanto, em junho de 2026, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da ADPF 1316, determinou temporariamente a suspensão da aplicação de determinadas multas e sanções relacionadas aos dispositivos que tratam dos fatores de riscos psicossociais, enquanto ocorre discussão institucional sobre critérios de avaliação e fiscalização.
A decisão não representa a eliminação das diretrizes gerais de gerenciamento previstas na NR-1.
Por esse motivo, organizações e profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho devem acompanhar os comunicados oficiais do Ministério do Trabalho e Emprego e eventuais atualizações do Supremo Tribunal Federal.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui avaliação técnica ou jurídica aplicável à realidade específica de cada organização.
Como construir um ambiente de trabalho que favoreça a saúde mental?
Não existe uma única ação capaz de produzir um ambiente de trabalho psicologicamente saudável.
Campanhas, palestras e materiais educativos podem contribuir para ampliar a conscientização, mas precisam estar acompanhados de medidas relacionadas à própria organização do trabalho.
Alguns pontos merecem atenção:
1. Criar canais seguros de comunicação
O trabalhador precisa encontrar condições para relatar dificuldades, situações inadequadas e problemas relacionados ao trabalho sem receio de exposição ou retaliação.
2. Capacitar lideranças
Gestores precisam compreender como acolher uma manifestação de sofrimento e realizar os encaminhamentos necessários. Também devem reconhecer seu papel na distribuição de demandas, comunicação, relações profissionais e organização das atividades.
3. Prevenir e enfrentar assédio e violência
Políticas formais precisam ser acompanhadas por procedimentos acessíveis de prevenção, comunicação, investigação e resposta.
4. Avaliar carga e ritmo de trabalho
Metas, quantidade de tarefas, recursos disponíveis, prazos, pausas e dimensionamento das equipes precisam ser analisados dentro do contexto real de cada atividade.
5. Melhorar clareza e comunicação
Ambiguidade de responsabilidades, expectativas contraditórias e mudanças sem comunicação adequada podem contribuir para tensões dentro das organizações.
6. Considerar autonomia e participação
A participação dos trabalhadores em decisões relacionadas à própria atividade, sempre que aplicável, contribui para que os riscos sejam identificados a partir da realidade do trabalho.
7. Criar procedimentos de acolhimento e encaminhamento
Lideranças, RH, SESMT e profissionais de saúde ocupacional precisam saber como agir quando um trabalhador manifesta sofrimento ou solicita apoio.
8. Divulgar canais de ajuda
Informações sobre CAPS, UBS, serviços de emergência, benefícios disponibilizados pela organização e CVV devem ser facilmente acessíveis.
9. Integrar saúde mental à SST
Saúde mental não deve funcionar como um programa completamente separado da Segurança e Saúde no Trabalho. Os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho precisam fazer parte dos processos de identificação, avaliação e prevenção de riscos ocupacionais.
Setembro Amarelo deve durar apenas um mês?
Não. Setembro cria visibilidade para um tema que precisa permanecer presente durante todo o ano.
Uma campanha pode abrir uma conversa que antes não existia. Pode divulgar canais de atendimento, aproximar pessoas de informações confiáveis e reduzir o receio de falar sobre sofrimento.
Mas prevenção exige continuidade.
No ambiente de trabalho, isso significa substituir ações exclusivamente pontuais por uma estratégia que envolva lideranças, RH, SESMT, saúde ocupacional, gestão de riscos e os próprios trabalhadores.
Significa também compreender que uma palestra sobre saúde mental não corrige, por si só, uma carga de trabalho inadequada, um problema recorrente de assédio ou uma estrutura em que as pessoas não se sentem seguras para falar.
A construção de ambientes de trabalho mais seguros também passa pela forma como as organizações identificam, avaliam e gerenciam os fatores que podem impactar a saúde de seus trabalhadores.
É nessa perspectiva que o Grupo Inovares atua em Segurança e Saúde no Trabalho, integrando conhecimento técnico, prevenção e gestão para contribuir para ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis.
Falar sobre saúde mental também é uma forma de cuidar. Transformar essa conversa em prevenção é o passo seguinte.
Fontes:



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